Eu fico aqui, na varanda ou na janela do quarto, preso nesta cadeira de rodas, observando a vida acontecer. Sei da vida de quase todos aqueles que moram de frente a minha casa, não porque eu seja um curioso, mas é que não me resta o que fazer, a não ser esperar que alguém me leve à varanda, de onde só saio para as refeições e para voltar ao quarto. Assim aprendi a gostar de observar. Desse modo, fico imaginando o que eu faria se pudesse voltar a viver, falando, cantando, vibrando, enfim, sentindo a vida, vivendo. E foi num desses dias repetidos de minha vida que conheci Carolina.
Carolina é a minha vizinha. Eu a observo todos os dias e pude perceber: embora tente dissimular sua tristeza, com um belo sorriso nos lábios, é uma moça triste! Ela não faz isso por que é má pessoa, simplesmente finge, como a maioria das pessoas, porque tem medo que elas descubram a tristeza que habita seu coração.
Ela deve ter seus 28 anos, é simpática e cumprimenta a todos. Não tem muitos amigos, mas aqueles que vêm visitá-la parecem ter por ela muito carinho. Eu também a quero bem. Todas as manhãs, antes de entrar no carro, ela olha para mim, que já estou bem cedinho em meu lugar, acena com um sorriso nos lábios, entra no carro e sai. Só volta à noite, com um olhar cansado.
Carolina parecia ser sozinha, mas observei que de vez em quando um rapaz, um pouco mais velho que ela, vinha visitá-la. Acho que não era daqui, porque aparecia a cada dois meses e ficava uns três dias, no máximo. Nesses dias, seu bom dia era diferente e parecia verdadeiramente sentir a alegria tão dissimulada no restante do ano.Alguns mistérios rondam a sua vida, sabe-se que antes de vir para cá, brigou com o pai, agora mora na casa da frente. Eu gosto dela, parece ser boa gente.
Na semana passada, o tal rapaz esteve aí, ela veio feliz até a porta para recebê-lo. Pulou em seus braços e ele a rodopiou como se quisesse prendê-la pra sempre naquele abraço. Saíram juntos. Ela não se cabia em si de contentamento. Seu sorriso é realmente diferente quando ele está aqui.
No dia seguinte, bem cedinho, o táxi parou em frente à sua casa, ele saiu com uma mala nas mãos, olhar triste, cara de poucos amigos. Eu vi quando Carolina abriu a cortina e o olhou pela janela. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ela sofria!Que triste dilema ronda essa história?
Nos dias que se seguiram, ela não saiu de casa, nem mesmo para visitar sua mãe como costuma fazer aos sábados. De vez em quando, debruçava-se no parapeito da janela com os vidros fechados e com os olhos perdidos em algum ponto, chorava desconsolada. Fiquei imaginando que eu gostaria de poder andar e ir até lá oferecer meus ombros a ela. Coitadinha da Carolina, tão jovem pra tanta tristeza! Se ela soubesse o que é a vida de um pobre moribundo como eu, depois de um derrame, não perderia tempo com tanto sofrimento. Se esse cara foi embora e a deixou, sorte dela! Merece alguém que valorize o tesouro que é.
Mas o fato é que, desde o dia que o rapaz se foi, Carolina não abriu as janelas, nem saiu de casa. Há dois dias não vai trabalhar. Olha…ela acaba de abrir a porta, mas… espera, não parece estar pronta para o trabalho. Ainda está triste, olhando o chão, o céu, como a procurar uma solução. Agora seu olhar encontrou o meu. Então ela atravessou a rua, sentou-se ao meu lado e começou a falar-me de sua vida, disse que o tal rapaz é o seu grande amor, mora no interior de São Paulo, é divorciado e tem um filho. Na semana que esteve com ela, disse que estava reatando o casamento, porque não suportava mais viver longe do filho, sentia-se um pai ausente.Ela tentou argumentar, dizendo que não precisava reatar um casamento falido para ser um pai presente, mas desistiu, sabia que ele não estava preparado para viver aquele amor. Os olhos da doce Carolina estavam marejados de lágrimas e à medida que contava parecia sentir uma imensa dor. Com muito pesar eu a ouvia, ao mesmo tempo, perguntava-me, por que vinha desabafar com um pobre velho que não andava e mal balbuciava palavras? Talvez por isso ela tenha me escolhido. Carolina precisava desabafar, não queria palpite, opinião, queria alguém que apenas a ouvisse. Eu ali, impotente, e aquela doce garota chorando e sofrendo, como a perguntar o que fazer. Eu seria merecedor de sua confiança? Nem em minha casa as pessoas percebem a minha presença, não perguntam como foi o meu o dia, acham que preciso apenas tomar sol, alimentar-me e dormir. Até minhas filhas parecem ter esquecido que eu gostava de ouvi-las e contar histórias de quando era garoto, antes do derrame colocar-me aqui, nesta cadeira de rodas. E Carolina agora, fazia-me lembrar de tudo isso.
Ah… garota! Se soubesse o bem que está fazendo a esse pobre velho solitário, viria sempre desabafar. Senti-me tão importante naquele dia!
“O melhor remédio é o tempo, o tempo se encarregará de curar suas feridas”, pensei. Até parece que ela ouviu meu pensamento. Olhou bem dentro dos meus olhos, agradecendo o favor que tinha feito de ouvi-la, pedindo para que não me preocupasse, porque o tempo cuidaria das feridas do seu coração. Consegui esboçar um sorriso, como se quisesse confirmar o que havia dito, ela entendeu. Pousou suas mãos generosas em meu rosto e disse: o senhor é um tesouro, um anjo que caiu do céu para mim, posso vir sempre jogar conversa fora? Todo orgulhoso, baixei a cabeça em sinal positivo, com um leve sorriso. Então Carolina despediu-se com um beijo em minha testa e foi-se embora.
Hoje ela foi trabalhar, e lá do outro lado, gritou com um sorriso maroto, “hoje estou atrasada, mas amanhã o senhor não me escapa… vai ter que me ouvir!”
É Carolina, se você soubesse o bem que a sua juventude e a sua alegria provocam em velhos como eu, jamais ficaria triste, porque o mundo parece mais suave quando não se está sozinho nele. Carolina, doce Carolina!
