Essa é uma história cotidiana de uma menina… perdão, de uma mulher que descobre as nuances do amor em cada passo dado em falso, em cada poesia inventada por seu coração, em cada olhar perdido de paixão. A história é de Vitória, mas podia ser minha ou sua!
Vitória acabara de sair de um relacionamento complicado, ao qual entregara-se sem medo e sem reservas. Sofrera noites inteiras de solidão. Seus dias pareciam intermináveis, atormentada pela culpa de nada ter percebido. Precisava admitir: fora traída! Porém, Vitória era uma pessoa especial, demoraria, mas conseguiria exorcizar aquele sentimento insuportável de fracasso e rejeição. Nesse momento, era como uma lagarta feia, que se esconde em seu casulo e por lá permanece até que o processo de metamorfose aconteça por completo. Mesmo sabendo que precisava, não tinha a menor vontade de sair dessa condição.
Dudu, seu amigo de longa data, preocupado em reanimá-la, preparou um churrasco, reunindo antigos colegas de faculdade. Vitória gostou da idéia de rever pessoas especiais, que a vida encarregara-se de separar. Agora podia reencontrá-los! Foi essa a motivação que a arrancou de casa.
Entre abraços calorosos de saudade, aos poucos ela já sorria em meio às lembranças das histórias vividas nos tempos da faculdade e contadas ali. A tarde seguia assim, alegre, gostosa, quando de repente seu olhar percebeu a presença de um rapaz que se destacava dos demais. Vitória sabia que não o conhecia e logo descobriu tratar-se de convidado de um colega em comum. Seus olhos cruzaram com os dele e à medida que detinha seu olhar a examiná-lo, foi tomada por um frio na espinha, uma perturbação incontrolável. Percebia-se encantada: o formato da boca, os traços perfeitos, olhar misterioso. Ele também notara sua presença e estudara cada movimento seu, porém não se atreveria a se aproximar, afinal ela parecia séria demais aos seus olhos. Talvez fosse isso que a tornasse tão atraente e pelo mesmo motivo procurou saber tudo a seu respeito. Ela, por sua vez, alheia a tudo isso, torcia para que ele a tirasse para dançar, era a única maneira que percebia de aproximar-se. Não queria sentir nem de longe o gosto amargo de ser rejeitada. Lembrara-se do ex-namorado e, decididamente, não queria vivenciar tudo isso outra vez. Manteve-se afastada, mesmo desejando ardentemente uma aproximação, que não aconteceu. O tempo passou rápido demais. Como num passe de mágica, via seu sonho despedir-se de todos, adentrar ao carro e sumir bem diante dos seus olhos, talvez para nunca mais. Nesse momento de total desespero, pensava em milhões de coisas ao mesmo tempo: em tudo que poderia estar perdendo, na possibilidade de um amor verdadeiro não vivido, e, principalmente, na angústia de viver por muitos dias com uma insuportável interrogação a gritar em seus ouvidos: “POR QUE NÃO TENTOU?”.
E viver com isso na cabeça? Nem pensar! Tomada por impulso buscou informações sobre o rapaz, conseguiu seu celular, respirou fundo, tomou coragem e ligou. Tropeçou nas palavras, no fundo esperava um NÃO e preparava-se para desculpar-se, mas, não foi o que aconteceu. O rapaz riu muito da maneira atrapalhada como ela falou e disse que gostaria de conhecê-la melhor. O chão faltou sob os pés de Vitória e quando ele perguntou se podia ligar mais tarde para combinarem um encontro, ela quase não conseguiu segurar sua alegria. Queria extravasar, gritar, pular e foi nesse estado de euforia que Vitória esperou ansiosa as horas e minutos “eternos” passarem. Coração acelerado, em sincronia com os ponteiros dos segundos do relógio que consultava, a todo o momento, ansiosa pelo toque do seu telefone. Que angústia! E quando o esperado aconteceu, parecia ver o céu estrelado e anjos tocando flautas enquanto combinavam os detalhes.
Podem imaginar o que significa sentir que se está bem diante da pessoa perfeita pra você? Foi assim que Vitória se sentiu quando se viu bem pertinho dele. Logo confirmou sua hipótese: o jeito como ele tocou o seu rosto, seu beijo e o jeito de falar com ela, fizeram com que Vitória derrubasse ali, qualquer dúvida, que por ventura ainda existisse. Enquanto seus lábios beijavam os dele, imaginava que finalmente encontrara seu grande amor, a química era perfeita! Estava perdidamente apaixonada. Os dias que se seguiram foram perfeitos, encontros românticos, palavras doces e apaixonadas. Entregava-se mais uma vez ao amor! Nem de longe lembrou dos dias tristes vividos antes do primeiro encontro.
Combinaram um fim de semana a sós e Vitória o esperou. Estava belíssima, preparou um jantar romântico. Seria um dia inesquecível, ela pensava. E realmente foi. Ele não apareceu e não deu qualquer satisfação. Silêncio total nos dias que se seguiram até que ele telefonou, como se nada tivesse acontecido, tratou-a com o carinho de sempre. É claro, que ela ficou indignada e fez a pergunta que a angustiava nesses dias: “você tem outra pessoa?” Um silêncio insuportável fez-se nesse momento. Palavra alguma precisava ser dita, o silêncio era o “sim” que ela tanto temia, mas ainda assim, ele confirmou. Faltou o chão sob os seus pés! Depois disso, Vitória não ouvia mais nada, pensava somente que mais uma vez havia se enganado. É incrível como muitas vezes temos força para enfrentarmos grandes barreiras, enormes desafios, mas nos deixamos abater por coisas tão pequenas! Vitória fechou-se em seu casulo. Desligou o telefone, totalmente perplexa, e chorou. Estava “destruída”, Sentia-se enganada, humilhada, rejeitada mais uma vez. E qual lagarta, em processo doloroso e solitário de metamorfose, fechou-se completamente ao mundo, permitiu-se sofrer tudo o que foi possível. Dessa vez, sabia que teria que encarar essa dor e suportá-la até o fim. Foram os dias mais difíceis de sua vida, mas colocou cada pedaço de si em seu devido lugar. E assim como há calmaria depois da tempestade, como todo sofrimento tem um fim, eis que em um belo dia de sol, surge do casulo uma linda borboleta, de asas enormes de um azul turquesa intenso. Segura em seu vôo altivo, pouso delicado, porém firme. Assim era Vitória: antes, uma menina, agora, uma mulher forte, determinada e segura, decidida a seguir em frente, alçar grandes vôos. Não viveria à espera de um grande amor, mas não fugiria dele, seria dona das suas escolhas. Permitiria à brisa conduzi-la num vôo suave rumo ao seu destino.
Vitória, enfim, estava pronta para uma nova etapa de sua vida: mais bonita mais segura, e como não podia deixar de ser, mais mulher, mais madura, mais Vitória!
